quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Somos semelhantes nas diferenças!

Homenagem ao Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa*

Queridos irmãos,

Por 14 anos participei de uma congregação recheada de preconceitos. Eu mesmo reagiria negativamente a um texto que começasse com a frase “queridos irmãos”. Naquela época, lendo depoimentos de ex-religiosos desiludidos com suas igrejas, eu pensava: “Como eles foram cair nesse conto de fadas?” 


Mas enquanto eu pensava isso, eu caía no meu próprio conto de fadas! Me envolvi com uma tal de “Conscienciologia”. Um grupo espiritualista de linha meio "New Age", com misturas de Espiritismo e Psicologia popular de auto-ajuda. Eu tinha concluído o Ensino Médio e estava buscando conhecer coisas novas. Passei a interessar-me por esse tal de “autoconhecimento” que não se via nas apostilas da escola. E acho que, apesar das diferenças, trilhei um caminho parecido com o dos relatos que leio aqui no site extj.net.

Fui muito bem recebido pelo grupo de "Conscienciologia". Quando viram que eu os escutava e entendia, passaram a tratar-me como uma pessoa com potencial. Um possível “escolhido”. Quando viram meu gosto pelos estudos, passaram a me ver de modo especial.

Para um jovem introvertido, meio nerd, não muito popular na escola, a sorte finalmente sorria para mim. Fui trilhando rapidamente os degraus do grupo e alcançando posições mais prestigiadas. No início eu distribuía panfletos e procurava trazer pessoas para as aulas, mas em pouco tempo já estava escrevendo textos, conduzindo pequenas reuniões, coordenando atividades de maior responsabilidade e dando aulas. Bem ajustado e elogiado pelo grupo, meu próximo passo era, naturalmente, me mudar da cidade de origem – Florianópolis (SC) – para Foz do Iguaçu (PR), onde estava a sede das atividades do grupo.

Naquela época, o “mundo lá fora” já quase não me interessava. Meu grupo não proíbe namoro com pessoas de fora, mas você acaba não querendo. Imaginem, eu sempre ocupado em reuniões e atividades de fins-de-semana, além de fazer minhas “meditações” diárias, já não gostando de sair à noite e achando as coisas mundanas muito se graça. É claro que procuraria namorar garotas da própria comunidade, que me entenderiam melhor. Sem falar nas diferenças de ideias, atitudes e linguagem. Dificilmente uma menina “normal” teria muita paciência para aguentar um “discípulo” que doou a vida para uma causa tão exótica que nem eu. O mesmo vale para os estudos e a profissão. Eu tinha que cuidar do meu trabalho para me sustentar. Mas cuidava o mínimo necessário. No resto do tempo, me dedicava à causa da Conscienciologia. Foi assim que, pelos anos mais importantes para a carreira de uma pessoa, negligenciei minha formação acadêmica e profissional.

Mas eu estava feliz, gostando do que fazia e seguindo minha “missão de vida”. Eu estava tão confiante que comecei a tomar iniciativas mais ousadas. Não tinha entendido que esperavam que eu fosse apenas uma “minipeça” (como eles falam), dentro do “mecanismo” do grupo. Passei a sair de funções administrativas para poder estudar mais a doutrina. Isso irritou 2 ou 3 líderes. Em seguida, passei a procurar, por conta própria, programas de rádio, colunas de jornal e páginas da internet para divulgar meus estudos. Isso irritou ainda mais esses líderes, que gostariam de fazer o mesmo, mas estavam atolados com o trabalho burocrático. Em seguida, propus publicar um livro pela editora do grupo. E então, os líderes que estavam de fora, ficaram extremamente indignados. Impediram que a editora trabalhasse no livro, o que apenas me levou a publicá-lo de maneira independente. Mas foi minha sentença de morte para o grupo.

Eu sabia que isso desagradaria a estes poucos, apenas não imaginava que sua reação fosse tão desequilibrada e extremista e muito menos imaginava que o restante das centenas ou milhares de membros simplesmente assistissem e acatassem. Foi minha grande decepção. Me esforcei tanto, para acabar por descobrir que estava em um rebanho de ovelhas, que simplesmente seguem o pastor, não importa em qual direção.

Quem dera fosse apenas uma decepção! Em seguida foi a hora de sentir na pele o ostracismo social. Os colegas de negócios e clientes ligados ao grupo voltaram as costas (sou formado em Economia e também estava iniciando um pequeno negócio na área de construção ecológica). Infinitas graças a Deus que eu trabalhava para um escritório que não estava ligado a esse grupo, ou também estaria no olho da rua, sem nenhuma reserva financeira, numa cidade relativamente pequena, onde meus contatos não queriam mais se envolver comigo e difundiam maldades pela internet para seus colegas do Brasil inteiro.

Me surpreendeu esse estilo de punição do grupo. Silenciar, abandonar e eliminar o ex-membro de toda forma possível. Uma espécie de assassinato simbólico. Passei o ano de 2012 ruminando todo tipo de sentimento a respeito disso. Foi quando, acidentalmente, lendo um artigo na internet, descobri que não estava sozinho. Encontrei um depoimento de um ex-Mórmon norte-americano relatando o mesmo. Navegando mais, encontrei as mesmas coisas faladas por ex-membros de outros grupos: Cientologia, Moonies, Hare Krishna… no Brasil, relatos de ex-pastores evangélicos, membros da Gnose e, por fim, os fóruns de ex-Testemunhas de Jeová.*

Pensei que era único, só que não! Sou apenas um entre tantos semelhantes que se envolveram com grupos “oito ou oitenta”"Oitenta" no exagero sobre a sua própria superioridade. "Oito" na forma como vêem os de fora. "Oitenta" na forma de inflarem o ego do simpatizante. "Oito" na forma ingrata de tratarem os que se afastam. É no extremismo que esses grupos se revelam intolerantes.

Qual a fábula em que caí? Não é a fábula das verdades do meu grupo! Se um grupo defende que a Terra é plana, quadrada ou redonda, isso pouco importa. Tudo isso pode ser corrigido se o grupo não estiver envolvido na "fábula da intolerância".
Sim! É a fábula de quem, para se defender, se considera especial, acima dos “humanos comuns”, “apóstatas”, “ignorantes” e que não estão qualificados para o diálogo. É a mesma fábula que envolve namorados imaturos: enquanto estão juntos, são “tesouros”; após a separação, são “lixo”.
É a fábula do “bom ou mau”, de quem não tolera ver a complexidade das coisas, precisando encaixar tudo rapidamente em apenas duas categorias extremas: se está comigo, é bom; se não está mais, é mau. Em resumo, é um simplismo extremista e imediatista, que se defende do diferente, tentando destruí-lo.

É com estas palavras que encerro meu testemunho, minha “confissão”, de quem um dia se considerou tão diferente e hoje se considera tão semelhante. Eu pensava ser diferente por causa das minhas crenças, como quem pensa que é diferente por causa da roupa que veste. 
Hoje me vejo muito semelhante, por causa da minha história em comum. Por isso bati à vossa porta para dizer que estou com vocês na luta contra a intolerância. 

Pois se minhas crenças me fazem brigar com os outros, elas de nada servem!