quarta-feira, 14 de junho de 2017

Abuso Psicológico

O Abuso Psicológico no Contexto da Intolerância Religiosa, publicado originalmente na revista eletrônica O Alienista (n. 2-3, 2016, p. 48-51).



A noção de abuso é fundamental para complementar a discussão sobre intolerância religiosa. A palavra intolerância remete-nos a pensar no indivíduo ou grupo que não tolera algo. Mas a intolerância se torna um problema social quando se concretiza em ações destrutivas. É a ideia de abuso que nos leva a olhar para os danos sociais que podem ser provocados por ideologias intolerantes. Em outras palavras, quando pensamos em intolerância, olhamos para as crenças e condutas dos potenciais agressores. Quando pensamos em abuso, olhamos para o ataque promovido. 
Além disso, o combate à intolerância se situa no campo da educação e da informação. Já o combate ao abuso se situa, também, no campo jurídico. Uma pessoa não pode ser culpada por não tolerar outra. Pode ser, talvez, reeducada. Por outro lado, um agressor pode (e deve) ser investigado e julgado por desrespeitar (ou estimular o desrespeito) aos direitos alheios. 
Situarei o abuso psicológico dentro da perspectiva de Michael Langone (1992), como sendo o desrespeito ou violação do outro em uma dentre 4 dimensões possíveis: mente (a liberdade para formar as próprias ideias), autonomia (a liberdade para fazer escolhas), identidade (sentir-se íntegro por si mesmo e não como objeto de outrem), dignidade (ser valorizado de maneira igualitária, sem discriminações excludentes).
Por motivos óbvios, o abusador evita como pode deixar registros. Abuso não é o tipo de assunto sobre o qual devemos aguardar sentados para que as provas concretas surjam à nossa frente. É uma relação que requer um tipo diferente de sensibilidade para ser identificada.
Lembremo-nos da violência doméstica. Não devemos aguardar por um hematoma no rosto da vítima pois, quando este surge, o ato já foi consumado! Um trabalho preventivo deve estar atento a sinais sutis que surgem muito antes, com situações de desrespeito aparentemente inofensivas que testam e empurram os limites da relação para um desnível crescente de poder entre as partes. Quando o hematoma aparece significa que esperamos demais, pois as sequelas psicológicas do desrespeito continuado já podem ter produzido marcas muito mais profundas do que o ferimento físico.
Lembremos também que é muito mais fácil estudar a vítima do que o agressor. Este procurará se ocultar, enquanto aquela tem mais predisposição para buscar auxílio. Este pode ameaçar quem se aproxima de maneira inquisitiva, enquanto aquela tem menos forças para se defender. Assim, também é naturalmente mais fácil encontrar “a culpa da vítima” do que “a culpa do agressor”, além de ser menos arriscado criticar a vítima do que criticar o agressor. Estas são algumas breves razões pelas quais estamos mais predispostos a culpabilizar a parte abusada e proteger a parte abusadora. Não por acaso, ao longo da história, muitas mulheres desestruturadas por situações repetidas de violência sexual foram chamadas de bruxas ou diagnosticadas como histéricas: era mais fácil encontrar a raiz do mal em alguma entidade metafísica ou orgânica do que nos pais, tios, primos, irmãos e maridos que as levaram a uma situação complexa de traumatização (HERMAN, 1992).
Por esse mesmo motivo, não é raro a vítima entrar em uma espiral de solidão, ao perceber que pessoas próximas preferem não tocar no assunto, seja por não acreditarem ou minimizarem a importância do que lhe aconteceu, seja por esperarem que o silêncio e a resignação resolvam tudo (um mecanismo psicológico de preservação contra os desgastes de levar a denúncia adiante). Jamais compreenderemos as situações de abuso em contextos religiosos sem desenvolvermos a sensibilidade para ouvir os testemunhos de quem passou por um grupo religioso abusivo.
Também é preciso sabermos que, para cada vítima que se prontifica a testemunhar, dezenas ou centenas estão caladas. Algumas ainda estão passando pelo processo de vitimização, não conseguindo se desvincular dos agressores, em uma condição de dependência. Algumas estão sob manipulação psicológica, acreditando que seus agressores são seus defensores, protegendo-os, absorvendo para si a culpa por situações de abuso ou desafiando-se neuroticamente a suportarem níveis de tensão cada vez mais fortes. Outras buscam, no silêncio, a tentativa de esquecer ou perdoar, o que lhes é de pleno direito embora contribua para manter a salvo o abusador. Outras ainda estão em situação de paralisia, evitando qualquer denúncia, temendo represálias. Portanto, novamente, precisamos ter consciência de que não apenas os hematomas como os testemunhos chegam tarde!
Por fim, precisamos levar em conta que o mesmo poder que possibilita alguém explorar outro, o possibilita de construir um colchão de suporte social. Um chefe que explore este ou aquele trabalhador (ou situações de assédio sexual, por exemplo), pode ter centenas de parceiros, clientes, familiares ou funcionários satisfeitos e dispostos a testemunhar em seu favor, contra a palavra de talvez uma ou duas vítimas já marginalizadas ou desestruturadas. Os abusadores, para se perpetuarem, precisam de aliados. Sem eles, estariam sozinhos e sofreriam retaliações na primeira
tentativa de explorar alguém. Abusadores sem aliados logo são descobertos ou precisam viver às escondidas. Um líder religioso explorador provavelmente terá milhares de fiéis, além de colaboradores, parceiros de negócios, advogados, políticos e até canais de rádio ou televisão para os defender. Nessas condições, dotados de um poder social, econômico, teológico e político grande, dentro das quatro paredes pouco fiscalizadas de suas instituições, não é difícil ultrapassar limites éticos e violar Direitos Humanos.

Referências:
HERMAN, Judith Lewis. Trauma and recovery. New York: Basic Books, 1992.
LANGONE, Michael D.. Psychological abuse. Cultic Studies Journal, v. 9, n. 2, p.206-218, 1992.
 Imagens: About Islam, Accident1, Apprising Ministries, Arya.

Para saber mais, conheça meu livro Seitas e Grupos Manipuladores: Aprenda a Identificá-los. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário